Onde você coloca o seu medo?

De todo o aprendizado dos últimos tempos acredito que um dos mais importantes foi relacionado ao medo.

Sempre deixei que esse sentimento me dominasse de uma forma tão forte que me achei por muito tempo incapaz de lidar com ele, de enfrentar tudo o que ele me trazia.

Mas tudo mudou quando passei a respeitar e acolher o medo. Quando saí de uma zona de “pavor” sobre a existência dele para uma relação de observação.

Observando o medo notei que estava tudo bem tê-lo por aqui. Que ele pode ser bom até certo ponto para me preservar. Mas que havia um limite importante que só eu seria capaz de colocar: o limite que o impede de me dominar e paralisar.

Talvez tenha sido mais fácil quando me reconectei com minha intuição e minha verdade interior. Foi só assim que percebi o quanto o medo me aprisionava e me impedia de viver coisas novas, de passar por experiências necessárias, de ter vivências que seriam importantes pro meu desenvolvimento.

Foi então que aprendi a encarar o medo e não fugir ou temer. Encarar é compreender que existe, acolher o sentimento e saber colocá-lo em seu lugar.

De forma prática, é como dizer “Olá, medo! No momento não preciso de você, fique aqui nessa caixinha enquanto vou ali fazer isso”.

Foi exatamente isso que fiz numa situação recente, e funcionou! Sabe aquela história de “se tiver medo vai com medo mesmo”? Eu fui apesar do medo. E em alguns momentos ele queria voltar e me dominar, mas eu sempre tornei a colocá-lo na caixinha, pois sabia que naquele momento ele não me servia para o bem.

Que o medo — assim como todos os nossos sentimentos — possa servir apenas para nos proteger e nunca para nos acorrentar. Que possamos lembrar sempre que temos livre-arbítrio e que nossa essência já está aqui, linda e pura. Basta olhar pra dentro, abrir os olhos do coração e enfrentar os temores. Basta acolher os sentimentos sem julgamentos, mas com respeito e compreensão do que eles querem nos mostrar no momento. Assim, veremos que somos mais do que o que sentimos, mais do que aquilo que tememos. Somos capazes de ser e viver apesar do medo, da dor ou de qualquer coisa que pareça nos limitar.

“Quer ser barco ou quer ser rio?”*

Ser barco nas águas é encarar o desconhecido
Rio calmo que flui
Mar bravo que afoga as certezas
Fui barco por tanto tempo
Navegando sem rumo e sem respostas
Para perguntas que mudam a todo instante
Fui barco que resistiu a tempestades
Que navegou por onde as águas levaram
Mas já não basta
Quero ser água também
Que segue seu próprio caminho
O próprio fluxo do viver
Sem âncoras, sem velas, sem nada que limite ou separe

Acho que sempre fui água
Só me faltava perceber
E mergulhar em mim mesma

Sempre serei água

*Referência à música Rosa Lacustre — Dance of Days

O que ninguém te conta sobre a jornada interior (eu até conto, mas você só vai saber mesmo quando viver)

(Mandala autoral no App MandalaKit – 2018)

Quando a gente decide se jogar na jornada do autoconhecimento a gente não imagina tudo o que está por vir. “Quero me tornar uma pessoa melhor” — é fácil de dizer. O que não é fácil é lidar com tudo o que há de pior em si para que veja o quanto precisa se transformar pra chegar perto de ser uma pessoa melhor.

A gente se sente um lixo. Desprezível. Os erros parecem placas luminosas piscando em nosso pensamento. E é aí que a gente percebe que não tem nada de “evoluído” em estar nessa jornada. O tal do “despertar” não te faz automaticamente uma ótima pessoa. E está aí mesmo a armadilha: o ego, o orgulho, a soberba, fazem a gente achar que é melhor do que o outro. E quando a gente despenca desse pedestal no qual nós mesmos nos colocamos dói. Quando a gente se dá conta de que machuca os outros, faz coisas por egoísmo, ou deixa de fazer coisas por medo, a gente vê claramente o quanto somos iguais à todo mundo.

E, pelo menos pra mim, isso incomoda. Culpa minha ou da pós-modernidade? Talvez um pouco dos dois: a sociedade exige que sejamos diferentes, temos que estar em destaque, fazer algo grandioso, ser importante, ter grana, poder, beleza. E a gente acaba acreditando que tem que ser assim mesmo, o ego se alimenta disso, dessa competitividade, do desejo de posse, e até daquele grande erro que creio ser o que mais cometo e o que mais me afeta negativamente: querer agradar todo mundo.

É bem difícil pra mim quando me dou conta de que não sou querida. Se num grupo de 10 pessoas 9 claramente gostam de mim e 1 não gosta, adivinha em quem ficarei pensando o tempo todo tentando entender o que fiz de errado? E de tanto pensar a gente encontra muitos motivos pra pessoa não gostar da gente, e a gente acha que precisa mudar, que precisa agradar, ser melhor.

Mas ser melhor talvez não seja bem isso. Ser melhor não pode ser pra agradar alguém além de nós mesmos. Afinal, as outras 9 pessoas gostam de você pelo que você é, se você mudar pra agradar essa 1 que falta, o que acontece? Sei lá, são só devaneios. O que quero falar mesmo é sobre como sobreviver ao autoconhecimento, especialmente a esses dias em que tudo o que somos parece errado demais.

Eu sei que um dia vou lembrar do que tenho de bom, mas tenho medo de cair novamente nas armadilhas do ego. EQUILÍBRIO. Uma simples palavra que resume o objetivo. Equilibrar o bom e o mau em nós. Saber ver o bom sem exageros e saber ver o mau sem desespero. Entender que esse equilíbrio é a nossa essência, afinal o ser totalmente bom é apenas uma busca.

É difícil encontrar esse pequeno ponto de equilíbrio quando oscilamos entre o êxtase de achar que somos o máximo e a tristeza de ver todos os nossos defeitos bem na nossa frente. Talvez o equilíbrio esteja em compreender e aceitar essas oscilações, abraçar os altos e baixos como a única trajetória possível da vida e aprender a viver no agora com aquilo que ele tem pra oferecer.

Texto postado originalmente no Medium, clique aqui pra acessar.

Em tempos de ódio, seja amor – Estratégias de ajuda mútua em tempos sombrios

O mal-estar é geral. Pelo menos geral no contexto das minorias, dos ativistas, militantes, ou como queira chamar a nós que lutamos por aquilo que acreditamos, pautados pelos preceitos dos direitos humanos. As eleições trouxeram à tona uma série de questões que já estavam debaixo do nosso nariz, mas ignorávamos por não ver tão claramente. Agora que a luz está brilhando forte sobre todo o conservadorismo, nossos olhos doem e nossos corações se enchem de medo.

Mas esse texto não é sobre o perigo que estamos correndo, sobre a violência que já nos atinge diariamente ou sobre a ameaça da legitimação dos ideais fascistas no país. Esse texto é sobre como sobreviver diante de tudo isso.

Acredito que a estratégia de ajuda mútua é essencial: eu te ajudo, você me ajuda, nós nos ajudamos. Tem dias que estamos bem e podemos ajudar os amigos que estão mal, em outros, nós é que seremos ajudados.

Então pontuei alguma atitudes simples que tenho tomado no dia-a-dia e que de repente podem te ajudar a cuidar de si e de quem está do seu lado:

. Estar presente e passar segurança. Mostre que você estará ali ao lado da pessoa independente do que aconteça. Mostre quantas outras pessoas também estão com vocês e vão ajudar a enfrentar qualquer situação que se apresente.

. Ajudar a pessoa a se distrair. Chame pra um café, pra ver um filme, fazer algo menos vinculado ao ambiente eleitoral, sair um pouco das redes sociais que nos bombardeiam com o tema o tempo todo. Mais olho no olho e boas risadas.

. Fazer algo que gosta. A gente perde tanto tempo com bobagens, né? Esse tempo poderia ser transformado em tempo pra nós, pra fazer o que a gente gosta: pode ser cozinhar, ler, assistir uma série, brincar com bichinhos, visitar alguém, conversar com alguém especial, enfim, pense em algo que te faz feliz e se joga nisso sem pensar em mais nada.

. Manter a nossa luta. Siga fazendo aquilo em que você acredita. Siga atuante (na medida do possível, claro) nas pautas que valoriza, siga fazendo o trabalho cotidiano de ajudar pessoas, independente de como isso se realize no seu caso.

. Se apegar ao que faz de melhor. Seja no seu trabalho formal, num trabalho voluntário, ou fazendo coisas boas na sua vida cotidiana, entenda a sua importância e relevância. Tenho certeza que existe algo bom aí que merece ser valorizado!

. Se juntar. Junta aquela turminha que é só amor e acolhimento. Fiquem juntos, conversem, se consolem, façam piadas. Descubra onde seu coração fica tranquilo e você pode se mostrar sem medo. Esse lugar pode ser uma casa, uma pessoa, um abraço: se demore ali.

Além das minhas dicas, vou deixar o texto maravilhoso de Miro Spinelli (disponível em sua página do Facebook):

sair do facebook
sair dos grupos de whatsapp
ou ficar
chorar
suar
meditar
reiki
aromaterapia
caminhar
correr
chá
mantra
oração
ouvir música no escuro
yoga
terapia
terapia em grupo
dançar sozinha
dançar junto
cozinhar uma coisa que você ama
se alimentar
performar
pedalar
tomar banho frio
tomar banho quente
abraço de urso
massagem
defesa pessoal
defesa coletiva
jogar tralha fora
encontrar amigas
ficar sozinha
ler poesia
ler teoria dissidente
ler ficção visionária
magia
alquimia
palo santo
defumação
chocolate
sal grosso
acupuntura
shiatsu
inspirar
expirar
camomila
marcela
alfazema
lavanda
alecrim
coentro
malaleuca
dendê
tarô
astrologia
uma taça de vinho
beijar na boca
pintar
desenhar
escrever
cozinhar feijão
fazer pão
tocar um instrumento
óleos essenciais
fazer campanha
não fazer campanha
masturbação
sexo
twerking
máscara facial
creme hidratante
mergulhar no mar
mergulhar no rio
capoeira
sentar sob queda d’água
artes marciais
gritar
banho de ervas
cantar alto
cantar baixo
escrita automática
registro de sonhos
bater suco de manhã
beber muita água
kundalini
floral
homeopatia
cerveja gelada
sopa
traçar planos de fuga
traçar estratégias de permanência
inventar novas técnicas de cuidado
respirar
respirar
respirar

Pelo amor, venceremos!

 

Texto publicado originalmente no Medium em 17 de outubro – ou seja, antes das eleições de 2018. Mas acho que ainda serve para o contexto que se desenha politicamente.

Terra

Quando foi que deixei de ser aquela criança que brincava na terra sem se preocupar?

Quando foi que a terra passou a ser sujeira e não mais espaço onde me sentia inteira?

A terra é mãe de todos, mas para as mulheres é exemplo, lembrança ancestral das raízes.

Quando a naturalidade se perde e a conexão se dissolve ficamos perdidas — desenraizar-se é perder a referência.