A homofobia nossa de cada dia

Pavilhão, Lgbt, Gay, Lgbtq, Lésbica, Bissexuais

Alguns dias após o massacre em Orlando, um dos tiroteios mais fatais da história do Estados Unidos, vi de perto a cara da homofobia, vi suas pequenas raízes, que parecem inofensivas mas fazem brotar sentimentos e ações terríveis.

Acho que o fato desse ato absurdo ter sido tão comentado nos últimos dias fez com que meu choque tenha sido ainda maior, apesar da situação ser algo tão “comum”.

Bom, foi o seguinte: estava numa sala repleta de professores universitários, que começaram inicialmente com críticas ao fato de alguns alunos de outra universidade estarem em greve. Até aí, apesar de eu discordar do posicionamento deles, tudo bem. Mas aí um dos professores saca o celular e passa a mostrar aos outros uma foto mostrando “os tipos de alunos que fazem parte da greve”. De repente começo a ouvir muitas risadas e não entendo direito, pois não consigo ver a foto. Aí uma professora comenta: “Nossa, eu não consigo dar uma cruzada de perna desse jeito (e mais risos)”, e todo mundo achando engraçado a pose do rapaz que segundo o professor que expõe “usa roupa de mulher, saia e tudo mais”. As risadas só vão aumentando junto com o meu sentimento que misturava raiva, tristeza e indignação. Logo entendi que se tratava de um rapaz gay e/ou de alguém que tinha uma expressão de gênero diferente do “tradicional”.

Já achei ridículo a pessoa estar expondo a outra dessa forma, fazendo chacota, independente de qual fosse o motivo. Mas o fato de ser homossexual ou se vestir de forma diferente ser o alvo das piadinhas me incomodou ainda mais.E o fato de serem professores universitários (dos quais se espera um mínimo de condição de pensar, já que devem contribuir na educação de outras pessoas) me deixou ainda mais chateada.

Mas o pior foi que não parou por aí. O professor que estava expondo a foto comenta que esse rapaz levou um chute durante um evento. Uma professora logo pergunta: “Mas o que ele fez pra levar esse chute?” e a resposta é: “Viadagem”.

VIADAGEM.

VI-A-DA-GEM. 

Duas coisas absurdas me saltaram: 1) A professora logo assumiu que se o moço levou um chute e é gay, deve ter feito algo que provocasse isso (parece um pouco com a história da mulher estuprada que “com certeza deu motivo, provocou”, não é mesmo?); 2) Parece que para o professor, fazer “viadagem” é motivo para violência, justifica o ato violento de alguma forma. Parece que o rapaz mereceu a agressão, afinal, foi fazer viadagem, deu nisso.

Nesse momento, quando tudo aconteceu, eu busquei palavras, busquei coragem e não encontrei. Fiquei acuada por estar num ambiente dominado por “eles” (essas pessoas que fazem esse tipo de coisa sem raciocinar o quão absurdo é) e só consegui passar a mão na minha bolsa e sair correndo. Eu sempre fico mal com essas coisas de não conseguir falar e reagir nesses situações, eu realmente odeio ser assim, queria tanto virar e falar um monte e mostrar o quanto tudo estava errado! Mas eu simplesmente não consegui ficar ali ouvindo tudo isso, foi como um veneno saindo da boca das pessoas e contaminando o ar.

Mas eu precisava desabafar de alguma forma e escolhi esse espaço aqui, no qual me sinto mais segura. E também precisava colocar as coisas no lugar pra realmente conseguir raciocinar e entender a ligação das coisas.

Entendi que a homofobia realmente está naturalizada no nosso cotidiano, quando achamos normal fazer essas piadinhas, quando achamos que gays não podem ser afeminados ou “fazer viadagem” e que isso torna a violência contra eles justificável ou compreensível.

Pra mim ainda é muito difícil entender como as pessoas pensam dessa maneira. E eu tento entender pra que um dia eu possa tentar falar e agir de forma que as faça ver que não precisa ser assim, que entendam que isso é a base pra uma cultura de ódio e violência que não faz bem pra ninguém. Pra mim é simples pensar que cada um tem sua vida e que devo respeitar as situações, escolhas, condições, enfim, respeitar o que o outro é, mesmo que eu não concorde. Mas respeitar ódio e violência não dá, e sei que preciso parar de me omitir nessas situações. Só espero que aqui, de alguma forma, eu possa estar contribuindo para a reflexão, mesmo que não atinja aquelas pessoas que mais precisam ouvir…

Espero que possamos enxergar que precisamos tomar atitudes no nosso cotidiano pra acabar com o preconceito fantasiado de piadinha, pra tirar de nós certos costumes que podem ofender os outros, pra parar de achar que é mimimi só porque eu não me incomodo. Se o outro se incomoda, isso é importante. Se o outro é violentado, isso é importante. Se o outro está sendo massacrado, isso é importante. Pode chamar de empatia, ou simplesmente de “se colocar no lugar do outro”, mas tente não pensar só no seu umbigo, tente ver o universo ao redor, a rede que somos e que podemos fortalecer para que tenhamos um mundo melhor para todos.

Às vítimas da boate em Orlando, ao moço que levou um chute, aos milhares de homossexuais violentados física e emocionalmente todos os dias no mundo todo, o meu mais sincero pedido de desculpas por não estar fazendo mais por vocês, por nós.

Que o amor prevaleça acima de tudo, sempre 

 

 

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3 comentários em “A homofobia nossa de cada dia

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