BULLYING: Precisamos Falar Sobre

“Bullying é uma situação que se caracteriza por agressões intencionais, verbais ou físicas, feitas de maneira repetitiva, por um ou mais alunos contra um ou mais colegas. O termo bullying tem origem na palavra inglesa bully, que significa valentão, brigão. Mesmo sem uma denominação em português, é entendido como ameaça, tirania, opressão, intimidação, humilhação e maltrato.”

A definição foi tirada daqui, e recomendo que leiam o artigo completo que é bem interessante. 

O acontecimento na escola de Goiânia em que um garoto atirou em colegas na sala de aula levantou, dentro outros temas, a questão do bullying. Não quero levar a discussão pra julgamentos sobre a motivação do garoto, sobre procedência da arma ou qualquer outra coisa: quero aproveitar pra falar de bullying e de outras formas de agressão (a definição de bullying fala em agressões repetidas, mas creio, particularmente, que mesmo acontecimentos pontuais possam prejudicar gravemente os que sofrem). Esse tipo de acontecimento funciona como um gatilho pra se falar do assunto, então acredito que o momento precisa ser usado pra isso. Pensar em bullying por conta dessa situação me fez lembrar de alguns momentos ruins passados por mim na época da escola. Infelizmente, parece que tenho mais recordações dos momentos de tristeza que tive por conta dessas “brincadeiras” do que memórias de momentos felizes na escola.

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E sabe, me entristece muito quando vejo esse discurso de “na minha época tinha isso e todo mundo levava numa boa”, ou “era só reagir e zoar o colega também que ficava tudo bem”, ou “que mimimi, agora tem até nome difícil pra falar disso?”, ou “eu zoava meus amigos e eles sabiam que era brincadeira e não se importavam”. SERÁ MESMO? Talvez quem diz essas coisas nunca tenha passado por uma situação constrangedora em que todos riem de você, ou te perseguem e ameaçam. Só podem ser pessoas que nunca foram zoadas por uma característica física, ou, no mínimo, tinham uma auto estima no teto pra não se importar com nada disso.

Deixe-me contar uma história (ou algumas): nem sei bem como, mas lá pela 5ª série um grupo de meninas da minha sala começou a me odiar. Além de me afastarem do grupo, o que me fazia ficar sozinha nos intervalos, rolaram duas situações muito marcantes (tanto que lembro delas até hoje). Fui encurralada por elas no banheiro e ameaçada de apanhar. Também teve uma atividade em sala em que deveríamos criar uma história e uma delas leu em voz alta a história sobre o ventilador de teto cair e matar uma menina (claro, a menina era eu). A professora apenas comentou sobre como a história era “estranha” e ficou por isso mesmo. Mas eu, como já deu pra perceber, gravei esse momento. Não sei se pela constante exclusão ou por algum motivo pontual em algum momento fui chamada junto com uma das meninas pra falar com a diretora da escola. O que aconteceu? Ela nos obrigou a pedir desculpas e nos abraçar. E eu realmente acreditei que ia ficar tudo bem, enquanto a garota só fez um teatrinho que durou até passar pela porta da sala da diretoria. E claro, eu lembro disso até hoje.

Pode parecer besteira pra alguns de vocês que estão lendo isso aqui, mas eu tenho certeza que muitos também vão entender do que eu estou falando. Querem mais histórias? Talvez essas não se encaixem no conceito de bullying porque foram pontuais, mas me marcaram bastante também: acho que foi também na 5ª série, no início das aulas, fui zoada por levar pra escola um fichário do Pikachu.

pikachu

Sim, deveríamos todos ter uns 10 anos, mas o fato de assumir gostar de Pokémon era uma vergonha, pois se esperava das meninas dessa idade que levassem fichários cor-de-rosa de algum tema mais “evoluído” e não essa coisa de criancinha que era Pokémon. Um belo dia também veio falar comigo um menino da turma que eu nem conhecia direito e me perguntou se eu tinha sido atropelada por uma Scania. Eu nem entendi porque não sabia o que era uma Scania. Tiveram que me explicar a piada pra eu entender que era uma referência à minha testa grande que parecia ter ficado assim por um atropelamento de caminhão.

Histórias, histórias. Vocês devem conhecer muitas, mas eu quis contar algumas das minhas, as que mais marcaram e estão vivas na minha memória, pra mostrar que essas brincadeiras não são coisas passageiras, bobagens de crianças que “depois passa”. Pode ser que sim, que algumas crianças sejam capazes de superar e esquecer, mas outras não. E realmente vamos negligenciar as que precisam de cuidado pra validar a necessidade das outras de humilhar e ferir? Algo errado não está certo. Ainda não ficou claro que seria melhor uma escola e um mundo onde TODOS são respeitados e convivem em harmonia? Sim, parece utópico e difícil, mas só por isso não vamos nem tentar? Vamos esperar acontecer com alguém muito próximo pra nos sensibilizar? Vamos esperar acontecer uma tragédia com mortes pra pensar melhor sobre o assunto e não sair negligenciando o tema só porque “somos sobreviventes” de um época em que o termo bullying não existia?

Sinceramente, eu fico triste demais de ver a dificuldade que as pessoas tem em desenvolver EMPATIA. Não tô dizendo que é fácil e que a gente nasce com isso, mas poxa, hoje em dia o acesso à informação é tão mais fácil, porque não aproveitamos isso pra nos tornarmos pessoas melhores? Digo isso porque certamente também pequei quando criança. Não me lembro de ter praticado bullying diretamente (até porque geralmente quem pratica não lembra, só quem sofre, não é mesmo?) mas já vi situações de bullying e não fiz nada. Demorou um tempo até eu aprender que omissão também é ruim, e pra eu me fortalecer o suficiente pra enfrentar em situações assim. Mas hoje eu consigo, e acredito que você é capaz de conseguir também.

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Pressão estética, dietas e terrorismo alimentar

Estou num grupo sobre gordofobia e tenho aprendido bastante sobre o tema e entendido algumas coisas que antes eu não tinha ideia. A primeira que eu queria comentar é a diferença entre gordofobia e pressão estética. (Vou comentar sobre isso de acordo com o que tenho visto no grupo, ok? Não tenho conhecimento formal sobre o tema, portanto se estiver equivocada já peço desculpas e peço que contribuam nos comentários).

Pressão estética é algo que qualquer pessoa pode sofrer, seja gorda ou magra. É uma pressão que recebemos da sociedade em geral, família, amigos, para que nos encaixemos em padrões estéticos estabelecidos. Já a gordofobia, pelo que entendi, atinge as pessoas gordas de uma maneira mais objetiva no cotidiano: dificuldade de caber em cadeiras, passar em catracas, encontrar roupas que sirvam, patologização (“gordo = doente”), dificuldade de obter atendimento médico de qualidade (por exemplo: vai ao médico tratar de uma coisa e ele reduz todos os seus problemas de saúde ao fato de estar gordo, mesmo que não haja nenhum tipo de relação). Bom, citei alguns exemplos que vi no grupo mas sei que vai ainda além disso.

Há muitas outras discussões também no que se refere à gordofobia, mas o ponto em que eu quero chegar é o quanto a pressão estética é prejudicial e muitas vezes leva aos outros dois itens que estão no título desse post: dietas e terrorismo alimentar.

Observei uma cena recentemente que me deixou muito assustada: na mesa do jantar a mãe falava para a criança que depois que passassem esses dias de festa elas iriam voltar para a dieta. Uma criança. Dieta. Vamos refletir: O que essas falas ensinam às crianças? Que conceitos e ideias? Que tipo de relação com a comida se estabelece? Eu me arrisco a dizer que esse tipo de situação ensina as crianças desde muito cedo que o normal é fazer dieta. Ainda que seja só um “modo de falar” e a criança não seja submetida de fato à algum tipo de restrição alimentar, a palavra fica gravada, a ideia é de que é preciso tomar cuidado para que a dieta seja seguida e que é um problema sair dela. A impressão que tenho é de que a alimentação não é encarada como algo natural, mas como uma coisa cheia de regras e que precisa ser controlada.

Falando em controle, vou fazer um parênteses aqui no texto pra indicar um texto que li e achei muito interessante: Fugindo do controle.

Outra coisa que me fez pensar no sentido das dietas recentemente foi uma situação em que uma moça me contava sobre como a dieta low carb foi excelente para ela, tendo perdido muitos quilos. Ela comentava que, apesar de não poder comer carboidratos, comia muita coisa gostosa, por exemplo: às vezes de madrugada fritava torresmo e comia sem culpa. Acho ótimo o comer sem culpa, inclusive acredito que isso nem deveria ser uma questão, pois comida e culpa não deveria estar relacionadas, já que se alimentar é uma necessidade básica do ser humano. Mas daí fiquei pensando: Eliminar o carboidrato e basear sua alimentação em gorduras e proteínas é mesmo saudável? Qual nosso conceito de saúde? Saúde é magreza e pronto? Infelizmente parece que sim, veja por esses exemplos que já identifiquei pessoalmente: o objetivo do gordo deve ser a “saúde”, o magro é visto automaticamente como saudável e não é cobrado; a pessoa gorda automaticamente não pode comer certos tipos de alimento (açúcar, gordura, entre outros), já para o magro tudo bem, quase ninguém se incomoda; o gordo é comumente visto como a pessoa que deseja/precisa emagrecer, o magro poucas vezes é entendido como alguém que deseja/precisa engordar.

Tudo isso indica que a “preocupação” não é com a saúde da pessoa gorda, mas com o fato dela ser gorda. E essa suposta preocupação é usada de desculpa pra praticar o terrorismo alimentar. “Gordo não pode comer isso”, “gordo deve comer aquilo”, cagação de regra e blá blá blá. O magro não incomoda. O magro não é considerado doente só pela forma de seu corpo. E entendam que nada disso é apologia à obesidade, não quero dizer de forma alguma que ser gordo é saudável e pronto. A ideia é realmente entender a questão de forma equilibrada: nem todo gordo é doente, nem todo magro é saudável. É só uma questão de parar de generalizar de forma tão superficial e de usar essa generalização pra julgar e destruir a auto estima e a saúde mental das pessoas gordas.

Inclusive, falando por mim, essa “preocupação” dos outros com o que eu como mais atrapalha do que ajuda*. Me coloca num estado de tensão e ansiedade que me fazem querer comer mais do que se eu estivesse bem com relação a tudo isso. Cheguei ao ponto de ter chocolate na bolsa pra comer escondido em caso de necessidade sem correr o risco de ser julgada (e comi escondida, de fato). Já aconteceu de sair de uma situação de vigilância alimentar e ter um episódio de compulsão, na tentativa de compensar aquele período em que eu não me sentia à vontade pra comer normalmente.

A ideia desse post é que, entendendo todas essas questões, possamos evitar essas generalizações, possamos refletir sobre nossos conceitos que afetam nossas falas e ações. Que possamos observar nossa postura com relação a essas questões e evitar práticas que levem a um desequilíbrio da nossa relação com a comida. Que tomemos consciência de como podemos estar influenciando negativamente a relação dos outros com a comida quando utilizamos algumas dessas “ferramentas” citadas ao longo do texto.

Que o terrorismo alimentar se torne liberdade e equilíbrio alimentar.

Que a dieta se torne um comer intuitivo e adequado a cada pessoa.

Que a pressão estética dê lugar à valorização de todos os corpos com suas formas e características únicas.

 

*Sabe o que ajuda? Pessoas compreensivas, que respeitam nosso espaço, nosso corpo, nossos sentimentos. Que se colocam à disposição pra ajudar sem julgar, que tentam entender o que estamos vivendo mesmo que não faça sentido nenhum pra elas – a famosa EMPATIA! -, que saibam que a receita de saúde que funciona pra elas pode não funcionar pra todo mundo, que te ajudam a encontrar o seu próprio caminho sabendo que ele vai ter obstáculos, trajetos e linhas de chegada diferentes.